O laudo pericial chegou, o relatório da extração do celular está nos autos e a acusação apresenta mensagens e arquivos como prova definitiva. Antes de aceitar esse material sem questionamento, o advogado criminalista precisa fazer a pergunta certa: o arquivo entregue realmente representa tudo o que estava no celular do seu cliente?
A resposta, na maioria dos casos, é: não necessariamente.
O Que é o UFDR e Como Ele é Gerado
O UFDR é o formato de relatório gerado pelas ferramentas da Cellebrite, empresa líder mundial em extração de dados de dispositivos móveis, após o processamento das evidências digitais.
O fluxo funciona assim:
- Um perito usa o UFED (ferramenta de extração da Cellebrite) para extrair os dados do celular
- A extração gera três arquivos: ZIP (dados brutos), UFD (arquivo da extração) e UFDX (log de todas as extrações realizadas no dispositivo)
- Esses arquivos são carregados em uma ferramenta de processamento, como o Physical Analyzer
- O resultado do processamento pode ser exportado no formato UFDR, que é o relatório que chega aos autos
O UFDR é visualmente acessível. Pode ser aberto por qualquer pessoa com Windows, permite navegar pelas mensagens, fotos, contatos e localização do dispositivo de forma simples. É exatamente por isso que é amplamente utilizado nos processos criminais.
Por Que o Relatório UFDR Não Garante Integralidade
Aqui está o ponto que a maioria dos advogados desconhece.
O operador que gera o relatório UFDR pode selecionar o conteúdo que vai para ele. Pode filtrar por período, por tipo de arquivo, por categorias específicas. E na maioria das situações é impossível identificar, apenas analisando o relatório, quais filtros foram aplicados e o que ficou de fora.
Ou seja: o UFDR pode mostrar apenas uma fração dos dados extraídos, e o advogado não tem como saber, olhando apenas para o relatório, se está vendo tudo ou uma seleção.
O Que Pedir Além do Relatório: ZIP, UFD e UFDX
A fonte primária da extração são os arquivos brutos. A defesa tem fundamento para requerer acesso a:
- ZIP: o conteúdo bruto extraído diretamente do dispositivo
- UFD: o arquivo da extração com os metadados da operação
- UFDX: o log completo com registro de todas as extrações realizadas, incluindo data, método, operador e outros dados de rastreabilidade
São esses formatos que permitem verificar se os dados apresentados no processo correspondem à integralidade do que foi extraído. O UFDR não é verificável por si só.
O Tipo de Extração Também Define a Completude
Ter acesso aos arquivos brutos ainda não é suficiente se o tipo de extração realizada foi limitado. Existem diferentes métodos:
- Extração lógica: acessa apenas os dados disponíveis pelo sistema operacional. Traz uma fração do conteúdo do celular
- Extração de sistema de arquivos: mais abrangente, acessa a estrutura de arquivos do dispositivo
- Extração física: a mais completa possível, acessa o armazenamento bruto do dispositivo
O POP da SENASP determina que a extração deve ser sempre a mais completa possível. Se a perícia realizou apenas uma extração lógica, o conteúdo bruto entregue ainda não representa a integralidade do celular, mesmo que venha acompanhado dos arquivos ZIP, UFD e UFDX.
A defesa pode e deve questionar qual método de extração foi utilizado e se existia a possibilidade técnica de realizar uma extração mais completa.
Considerações Finais
A prova digital extraída de celulares tem uma cadeia de produção que vai da extração ao relatório final, e cada etapa dessa cadeia é um ponto de verificação para a defesa. O UFDR entregue nos autos pode ser apenas um recorte de algo maior, e o advogado criminalista que não conhece esse fluxo não sabe o que questionar.
Requerer os arquivos brutos no formato ZIP, UFD e UFDX, verificar o tipo de extração realizada e confrontar esses dados com o que foi apresentado no processo são ações concretas que podem mudar o peso da prova digital na sua defesa.
Dominar a prova digital não é opcional. É o diferencial que muda o resultado do processo. Faça parte do Tribunal Digital.

