UFDR Garante Integralidade? O Que o Advogado de Defesa Precisa Saber

O laudo pericial chegou, o relatório da extração do celular está nos autos e a acusação apresenta mensagens e arquivos como prova definitiva. Antes de aceitar esse material sem questionamento, o advogado criminalista precisa fazer a pergunta certa: o arquivo entregue realmente representa tudo o que estava no celular do seu cliente?

A resposta, na maioria dos casos, é: não necessariamente.

O Que é o UFDR e Como Ele é Gerado

O UFDR é o formato de relatório gerado pelas ferramentas da Cellebrite, empresa líder mundial em extração de dados de dispositivos móveis, após o processamento das evidências digitais.

O fluxo funciona assim:

  1. Um perito usa o UFED (ferramenta de extração da Cellebrite) para extrair os dados do celular
  2. A extração gera três arquivos: ZIP (dados brutos), UFD (arquivo da extração) e UFDX (log de todas as extrações realizadas no dispositivo)
  3. Esses arquivos são carregados em uma ferramenta de processamento, como o Physical Analyzer
  4. O resultado do processamento pode ser exportado no formato UFDR, que é o relatório que chega aos autos

O UFDR é visualmente acessível. Pode ser aberto por qualquer pessoa com Windows, permite navegar pelas mensagens, fotos, contatos e localização do dispositivo de forma simples. É exatamente por isso que é amplamente utilizado nos processos criminais.

Por Que o Relatório UFDR Não Garante Integralidade

Aqui está o ponto que a maioria dos advogados desconhece.

O operador que gera o relatório UFDR pode selecionar o conteúdo que vai para ele. Pode filtrar por período, por tipo de arquivo, por categorias específicas. E na maioria das situações é impossível identificar, apenas analisando o relatório, quais filtros foram aplicados e o que ficou de fora.

Ou seja: o UFDR pode mostrar apenas uma fração dos dados extraídos, e o advogado não tem como saber, olhando apenas para o relatório, se está vendo tudo ou uma seleção.

O Que Pedir Além do Relatório: ZIP, UFD e UFDX

A fonte primária da extração são os arquivos brutos. A defesa tem fundamento para requerer acesso a:

  • ZIP: o conteúdo bruto extraído diretamente do dispositivo
  • UFD: o arquivo da extração com os metadados da operação
  • UFDX: o log completo com registro de todas as extrações realizadas, incluindo data, método, operador e outros dados de rastreabilidade

São esses formatos que permitem verificar se os dados apresentados no processo correspondem à integralidade do que foi extraído. O UFDR não é verificável por si só.

O Tipo de Extração Também Define a Completude

Ter acesso aos arquivos brutos ainda não é suficiente se o tipo de extração realizada foi limitado. Existem diferentes métodos:

  • Extração lógica: acessa apenas os dados disponíveis pelo sistema operacional. Traz uma fração do conteúdo do celular
  • Extração de sistema de arquivos: mais abrangente, acessa a estrutura de arquivos do dispositivo
  • Extração física: a mais completa possível, acessa o armazenamento bruto do dispositivo

O POP da SENASP determina que a extração deve ser sempre a mais completa possível. Se a perícia realizou apenas uma extração lógica, o conteúdo bruto entregue ainda não representa a integralidade do celular, mesmo que venha acompanhado dos arquivos ZIP, UFD e UFDX.

A defesa pode e deve questionar qual método de extração foi utilizado e se existia a possibilidade técnica de realizar uma extração mais completa.

Considerações Finais

A prova digital extraída de celulares tem uma cadeia de produção que vai da extração ao relatório final, e cada etapa dessa cadeia é um ponto de verificação para a defesa. O UFDR entregue nos autos pode ser apenas um recorte de algo maior, e o advogado criminalista que não conhece esse fluxo não sabe o que questionar.

Requerer os arquivos brutos no formato ZIP, UFD e UFDX, verificar o tipo de extração realizada e confrontar esses dados com o que foi apresentado no processo são ações concretas que podem mudar o peso da prova digital na sua defesa.

Dominar a prova digital não é opcional. É o diferencial que muda o resultado do processo. Faça parte do Tribunal Digital.