Normas Tecnicas — Joaquim Neto

Normas Tecnicas

Normas, metodologias e legislacao que regulam a coleta, preservacao e analise de evidencias digitais

Normas Internacionais

ISO/IEC 27037:2013 Internacional
ABNT NBR ISO/IEC 27037 — Diretrizes para identificacao, coleta, aquisicao e preservacao de evidencia digital
Norma que padroniza o tratamento de evidencias digitais. Define quatro requisitos metodologicos: Auditabilidade (determinar se o procedimento foi seguido), Repetibilidade (mesmo analista + mesmos equipamentos = mesmos resultados), Reprodutibilidade (analista diferente = mesmos resultados), Justificabilidade (decisoes fundamentadas). Define dois perfis: DEFR (Digital Evidence First Responder) e DES (Digital Evidence Specialist).
  • Topico 5.4: preservacao de metadados
  • Topico 7.1.1: funcao hash para verificacao de integridade
  • Aplicavel a todos os tipos de vestigio digital
iso.org
Aplicacao na defesa: Questionar procedimentos que nao atendem aos requisitos de auditabilidade, repetibilidade e reprodutibilidade. Exigir documentacao completa de cada etapa.
ISO/IEC 27041:2015 Internacional
Guidance on assuring suitability and adequacy of incident investigative method
Diretrizes para garantir que os metodos de investigacao sao adequados e apropriados. Define como validar que as ferramentas e processos utilizados na investigacao produzem resultados confiaveis e reproduziveis.
iso.org
Aplicacao na defesa: Questionar se a ferramenta forense utilizada foi validada para o tipo especifico de dispositivo e extracao realizada.
ISO/IEC 27042:2015 Internacional
Guidelines for the analysis and interpretation of digital evidence
Diretrizes para analise e interpretacao de evidencias digitais. Define o processo analitico: exame inicial, analise, interpretacao dos resultados e relato. Estabelece que o analista deve documentar hipoteses, testes realizados e conclusoes fundamentadas.
iso.org
Aplicacao na defesa: Questionar se as conclusoes do laudo sao fundamentadas nos dados ou se sao inferencias sem suporte tecnico.
ISO/IEC 27043:2015 Internacional
Incident investigation principles and processes
Define os principios e processos para investigacao de incidentes envolvendo evidencias digitais. Estabelece o fluxo completo: preparacao, deteccao, resposta inicial, coleta, exame, analise, relato e encerramento.
iso.org
Aplicacao na defesa: Verificar se todas as fases do processo investigativo foram cumpridas e documentadas.
RFC 3227 Internacional
Guidelines for Evidence Collection and Archiving (IETF, 2002)
Documento de boas praticas da IETF para coleta e arquivamento de evidencias. Topico 2.4 define quatro requisitos: Admissivel (obedece regras legais), Autentica (vinculavel ao incidente), Completa (conta toda a historia), Confiavel (sem duvida sobre coleta e manuseio). Define a ordem de volatilidade: RAM > cache > tabelas de roteamento > processos > disco > logs remotos > midias de backup.
  • Topico 2.1: ordem de volatilidade para coleta
  • Topico 2.4: requisitos legais das evidencias
  • Topico 3: procedimento de coleta
  • Topico 4: procedimento de arquivamento
rfc-editor.org
Aplicacao na defesa: Questionar integralidade (requisito “Completa”) quando dados parciais sao apresentados. Questionar ordem de coleta quando dados volateis nao foram priorizados.
NIST SP 800-86 Internacional
Guide to Integrating Forensic Techniques into Incident Response (2006)
Guia do National Institute of Standards and Technology (EUA) para integracao de tecnicas forenses na resposta a incidentes. Abrange forense de dados (discos, midias removiveis), forense de sistema operacional (logs, processos), forense de rede (trafego, logs) e forense de aplicacoes (e-mail, navegadores).
csrc.nist.gov
Aplicacao na defesa: Referencia para questionar procedimentos de coleta e analise de logs, trafego de rede e artefatos de aplicacoes.
NIST SP 800-101r1 Internacional
Guidelines on Mobile Device Forensics (2014)
Diretrizes do NIST para forense em dispositivos moveis. Topico 3.4 — Forensic Tool Capabilities: “Uma caracteristica importante de uma ferramenta forense e a sua capacidade de manter a integridade da fonte de dados original que esta sendo processada.” Define niveis de extracao: manual, logica, sistema de arquivos, fisica (hex dump/JTAG) e chip-off.
  • Topico 3.4: capacidades de ferramentas forenses e preservacao de integridade
  • Define niveis de extracao de dispositivos moveis
  • Procedimentos de isolamento e preservacao
csrc.nist.gov
Aplicacao na defesa: Questionar capacidade e validacao da ferramenta forense utilizada. Exigir que a ferramenta mantenha integridade da fonte de dados.
SWGDE Internacional
Scientific Working Group on Digital Evidence
Grupo de trabalho cientifico dos EUA que publica documentos de boas praticas para diversas areas da forense digital: aquisicao de imagens forenses, analise de dispositivos moveis, analise de video, forense em nuvem, forense de veiculos, entre outros. Os documentos SWGDE sao referencias tecnicas citadas em tribunais internacionais.
  • Best Practices for Mobile Device Evidence Collection & Preservation
  • Best Practices for Digital & Multimedia Evidence Video Acquisition
  • Best Practices for Forensic Image Authentication
  • Best Practices for Computer Forensic Acquisitions
  • Best Practices for Digital Evidence Collection
swgde.org
Aplicacao na defesa: Referencia para questionar procedimentos de coleta e analise que nao seguem boas praticas internacionais consolidadas.

Normas e Procedimentos Nacionais

POP SENASP 2013 Nacional
Procedimento Operacional Padrao — Ministerio da Justica / SENASP
Procedimentos Operacionais Padrao da Secretaria Nacional de Seguranca Publica para pericia em informatica forense. Topico “Exame Pericial de Equipamento Computacional Portatil” define: a etapa de extracao corresponde a copia forense (espelhamento/imagem) dos dados, com calculo de hash no momento da extracao, acompanhamento por perito criminal e manuseio minimo do dispositivo.
  • Extracao de dados via copia forense com ferramenta validada
  • Calculo de assinatura hash SHA-256 no momento da extracao
  • Registro de cadeia de custodia
  • Manuseio minimo do dispositivo
  • Perito criminal deve acompanhar a coleta
Aplicacao na defesa: Questionar extracoes realizadas sem ferramenta forense, sem hash no momento da extracao ou sem perito criminal presente.
POP SENASP 2024 Nacional
Atualizacao dos Procedimentos Operacionais Padrao
Atualizacao dos procedimentos de 2013, mantendo as mesmas exigencias fundamentais e reafirmando a necessidade de metodologias cientificas validadas para coleta e preservacao de vestigios digitais.
  • Mantém exigencias de 2013: copia forense + hash SHA-256 + cadeia de custodia
  • Isolamento do dispositivo: modo aviao ou gaiola de Faraday
  • Manuseio minimo do dispositivo
  • Reafirma necessidade de ferramentas validadas
Aplicacao na defesa: Mesma aplicacao do POP 2013, com enfase no isolamento de radiofrequencia (bolsa de Faraday / modo aviao).

Legislacao Brasileira

CPP Art. 158-A a 158-F Legislacao
Cadeia de Custodia — Lei 13.964/19 (Pacote Anticrime)
Artigos do Codigo de Processo Penal que regulamentam a cadeia de custodia no Brasil. Art. 158-A: define vestigio como “todo objeto ou material bruto, visivel ou latente, constatado ou recolhido, que se relaciona a infracao penal”. Define cadeia de custodia como o conjunto de procedimentos para manter e documentar a historia cronologica do vestigio.
  • Art. 158-A: definicao de vestigio e cadeia de custodia
  • Art. 158-B: 10 etapas (reconhecimento, isolamento, fixacao, coleta, acondicionamento, transporte, recebimento, processamento, armazenamento, descarte)
  • Art. 158-C: perito oficial e documentacao
  • Art. 158-D: recipientes selados com lacres numerados
  • Art. 158-E: central de custodia
  • Art. 158-F: pessoas autorizadas ao acesso
planalto.gov.br
Aplicacao na defesa: Impugnar provas quando qualquer etapa da cadeia de custodia nao foi documentada ou quando lacres foram violados sem registro.
CPP Art. 159 Legislacao
Pericia e Assistente Tecnico
Regulamenta a pericia no processo penal. Define que o exame de corpo de delito e pericias serao realizados por perito oficial. §3o: as partes podem indicar assistente tecnico. §4o: o assistente atua apos a conclusao dos exames. §5o: o assistente pode formular quesitos e elaborar parecer tecnico.
planalto.gov.br
Aplicacao na defesa: Fundamentar o direito de indicar assistente tecnico, formular quesitos e elaborar parecer tecnico para contestar o laudo oficial.
CPP Art. 6o, I e II Legislacao
Preservacao do Local e Apreensao de Objetos
Define que a autoridade policial deve: I — dirigir-se ao local, providenciando para que nao se alterem o estado e conservacao das coisas, ate a chegada dos peritos criminais; II — apreender os objetos que tiverem relacao com o fato, apos liberados pelos peritos criminais.
planalto.gov.br
Aplicacao na defesa: Questionar quando a autoridade policial acessou o dispositivo (celular, computador) antes da chegada do perito criminal, alterando o estado dos vestigios.
Marco Civil da Internet Legislacao
Lei 12.965/14 — Principios, garantias, direitos e deveres para uso da internet
Estabelece prazos obrigatorios de guarda de registros pelos provedores. Art. 13: registros de conexao (provedor de acesso) — guarda obrigatoria por 1 ano. Art. 15: registros de acesso a aplicacao (provedor de servico) — guarda obrigatoria por 6 meses. Apos esses prazos, o provedor pode descartar legalmente os registros.
planalto.gov.br
Aplicacao na defesa: Verificar se a requisicao judicial foi feita dentro dos prazos de guarda. Registros solicitados fora do prazo podem nao existir mais.
Lei 9.296/96 Legislacao
Interceptacao de Comunicacoes Telefonicas e Telematicas
Regulamenta a interceptacao de comunicacoes telefonicas e telematicas mediante autorizacao judicial. Define requisitos: indícios razoaveis de autoria, impossibilidade de producao de prova por outros meios, infracoes punidas com reclusao. Prazo: 15 dias, renovavel por igual periodo mediante fundamentacao.
planalto.gov.br
Aplicacao na defesa: Verificar autorizacao judicial, prazos de renovacao, fundamentacao das renovacoes e se os requisitos legais foram cumpridos.
LGPD Legislacao
Lei 13.709/18 — Lei Geral de Protecao de Dados
Regula o tratamento de dados pessoais no Brasil. Art. 4o, III: exclui do escopo da lei o tratamento para fins de seguranca publica, defesa nacional e investigacao criminal. A LGPD impacta como provedores armazenam e compartilham dados, e pode ser referenciada em questionamentos sobre proporcionalidade e necessidade da coleta.
planalto.gov.br
Aplicacao na defesa: Questionar proporcionalidade da coleta de dados quando o volume coletado excede o necessario para a investigacao.
Sumula Vinculante 14 — STF Legislacao
Direito de acesso aos autos do inquerito
“E direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, ja documentados em procedimento investigatorio realizado por orgao com competencia de policia judiciaria, digam respeito ao exercicio do direito de defesa.”
portal.stf.jus.br
Aplicacao na defesa: Fundamentar pedido de acesso integral aos dados brutos da extracao (ZIP, UFD, UFDR), nao apenas ao relatorio formatado.

Resolucoes do CNJ

Resolucao 408/2021 — CNJ CNJ
Cadeia de Custodia Digital de Provas e Uso de Criptografia
Regulamenta a cadeia de custodia digital no ambito do Poder Judiciario. Dispoe sobre o armazenamento, tratamento e protecao de documentos digitais que tramitam em meio eletronico. Estabelece que documentos digitais juntados aos autos eletronicos devem preservar sua integridade por meio de assinatura digital ou codigo hash, garantindo a rastreabilidade e a auditabilidade do documento.
atos.cnj.jus.br
Aplicacao na defesa: Exigir que provas digitais juntadas aos autos eletronicos tenham hash ou assinatura digital registrados, permitindo verificacao de integridade.
Resolucao 59/2008 — CNJ CNJ
Disciplina e uniformiza as rotinas visando ao aperfeicoamento do procedimento de interceptacao
Disciplina e uniformiza procedimentos relativos a interceptacao de comunicacoes telefonicas e telematicas no ambito do Poder Judiciario. Estabelece requisitos para: pedidos de interceptacao, prazos, renovacoes, armazenamento do material interceptado e destruicao apos o prazo legal. Define que o material da interceptacao deve ser armazenado em sistema informatizado com controle de acesso.
atos.cnj.jus.br
Aplicacao na defesa: Verificar se os procedimentos de interceptacao seguiram os requisitos do CNJ: autorizacao judicial especifica, prazo, fundamentacao da renovacao e armazenamento adequado do material.